Salvador anda mais barulhenta, mais cheia e mais viva. As mesas se espalham pelas calçadas, os copos se acumulam sobre os balcões e encontrar lugar para sentar virou desafio em muitos bairros da cidade. Esse cenário, cada vez mais comum, ajuda a explicar o clima de confiança que marca o início de 2026 para bares e restaurantes na Bahia.
Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 69% dos estabelecimentos do país esperam faturar mais no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado. Na Bahia, esse otimismo ganha forma nas ruas, especialmente em Salvador, onde o setor soma cerca de 17 mil bares, restaurantes e lanchonetes em funcionamento. No estado, são aproximadamente 75 mil empreendimentos ligados à alimentação.
O movimento é mais intenso em regiões de forte apelo turístico e cultural, como Barra, Rio Vermelho, Pelourinho, Itapuã, Comércio e o Dois de Julho. Em muitos desses pontos, a cena se repete: casas cheias, garçons circulando sem parar, música misturada ao burburinho das conversas e turistas dividindo espaço com moradores antigos.
Para o diretor da Abrasel Bahia, Leandro Menezes, o bom momento é reflexo direto do trabalho contínuo de fortalecimento do turismo. “Aqui na Bahia, a gente vem de um trabalho muito bem feito da Secretaria de Turismo do Estado, da Secretaria do Município da nossa capital, de todo o trade turístico. Desde o pós-pandemia, os resultados vêm crescendo ano após ano”, afirma.
Segundo ele, o impacto do turismo é visível no dia a dia da cidade. “Cada verão que passa, a gente vê números recordes de turistas. A movimentação nas ruas de Salvador é muito grande, e isso se reflete diretamente nos bares e restaurantes”, diz. Mesmo quem se hospeda em hotéis ou na casa de parentes acaba, em algum momento, ocupando mesas pela cidade.
No Dois de Julho, bairro onde história, boemia e vida cotidiana caminham juntas, um pequeno bar comandado por Marli virou ponto de parada quase obrigatório. O lugar não tem placa chamativa nem cardápio sofisticado, mas costuma estar cheio de moradores, estudantes, artistas e visitantes curiosos em conhecer uma Salvador que não cabe nos folders turísticos.
Frequentador assíduo, o servidor público aposentado José Carlos Almeida, de 68 anos, resume o clima. “Aqui é conversa, é risada, é gente chegando toda hora. Quando aparecem turistas, eles se encantam. Perguntam, querem saber da história do bairro, ficam mais tempo do que imaginavam”, conta.
Ele diz que o movimento mudou muito depois da pandemia. “Teve um período duro, muita gente fechou. Hoje é diferente. Tem dia que não dá nem para achar mesa. O pessoal vem comer, mas acaba ficando, emendando uma conversa na outra”, relata.
Essa mesma vibração se espalha por bares que fazem parte da memória afetiva da cidade, como o Bar das Mariquitas, no Rio Vermelho. Frequentadora do local, a professora universitária Ana Paula Souza, de 42 anos, diz que esses espaços ajudam a entender por que o setor segue confiante. “Salvador tem bares que são encontro, história e identidade. Não é só sentar e consumir. É viver a cidade”, afirma.
A Abrasel informa que atualmente reúne cerca de 680 associados em toda a Bahia, sendo pouco mais de 400 em Salvador. Para Leandro Menezes, esses números representam apenas uma parte de um setor amplo, que mudou muito desde 2020. “Muitos negócios fecharam na pandemia, outros se reinventaram. Hoje, o que a gente vê é um mercado mais maduro, mais atento à experiência do cliente”, avalia.
Atendimento – O debate sobre atendimento também voltou à tona, muitas vezes atravessado por preconceitos. Para Leandro, a realidade é mais equilibrada. “O atendimento aqui é satisfatório, como em outras grandes capitais. Claro que sempre há o que melhorar, mas o baiano tem uma característica forte de receptividade, e isso está sendo valorizado novamente”, afirma.
A qualificação profissional segue como parte desse processo. O Senac concentra a maior oferta de cursos ao longo do ano, enquanto a Abrasel e parceiros privados atuam com treinamentos pontuais dentro dos próprios estabelecimentos. “Hoje, mais do que técnica, o cliente quer acolhimento”, diz Leandro.
Com turismo aquecido, bares cheios, mesas disputadas e uma cidade que voltou a ocupar seus próprios espaços, 2026 começa com gosto de retomada consolidada. Entre pratos divididos, copos brindados e histórias contadas sem pressa, bares e restaurantes seguem como um dos melhores retratos da energia econômica e da hospitalidade que fazem da Bahia um destino sempre desejado.








