{"id":4877,"date":"2023-10-09T10:25:38","date_gmt":"2023-10-09T13:25:38","guid":{"rendered":"https:\/\/cidadebaixaonline.com.br\/?p=4877"},"modified":"2023-10-09T10:25:39","modified_gmt":"2023-10-09T13:25:39","slug":"agentes-de-saude-sofrem-com-violencia-nos-territorios-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cidadebaixaonline.com.br\/index.php\/2023\/10\/09\/agentes-de-saude-sofrem-com-violencia-nos-territorios-do-pais\/","title":{"rendered":"Agentes de sa\u00fade sofrem com viol\u00eancia nos territ\u00f3rios do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n<p>Estudo realizado pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz do Cear\u00e1 (Fiocruz Cear\u00e1) aponta o impacto da viol\u00eancia e da covid-19 nos agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade (ACS) do Nordeste brasileiro, abrangendo quatro capitais (Fortaleza, Recife, Jo\u00e3o Pessoa e Teresina) e quatro cidades da regi\u00e3o (Crato, Barbalha, Juazeiro do Norte e Sobral). Os mais de 20 pesquisadores de cerca de 13 institui\u00e7\u00f5es do Brasil e do exterior far\u00e3o, at\u00e9 o final deste ano, o desenvolvimento das informa\u00e7\u00f5es em todos os munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia \u00e9 continuar coletando dados de forma cont\u00ednua, disse \u00e0 Ag\u00eancia Brasil a coordenadora da pesquisa, Anya Vieira Meyer, da Fiocruz Cear\u00e1. Na \u00faltima quarta-feira (4), comemorou-se o Dia Nacional do Agente Comunit\u00e1rio de Sa\u00fade e dos Agentes de Combate \u00e0s Endemias. A pesquisadora da Fiocruz Cear\u00e1 est\u00e1 em Boston para avalizar os dados junto com cientistas da Universidade de Harvard, Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo entrevistou 1.944 ACS de oito cidades nordestinas. Os primeiros resultados de 2021 revelam que a viol\u00eancia afetou a sa\u00fade mental de 64,7% dos ACS e 41,1%, a sa\u00fade f\u00edsica. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 covid-19, o estudo demonstrou que 77,6% dos ACS trabalharam na linha de frente contra a doen\u00e7a e 83,8% n\u00e3o receberam treinamento contra a covid-19. Para 80,7%, a viol\u00eancia n\u00e3o influenciou na atua\u00e7\u00e3o dos agentes durante a pandemia. Do total de entrevistados, 40,4% avaliaram que o processo de trabalho em equipe melhorou durante a covid-19, enquanto para 37,9%, houve piora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dados alarmantes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De maneira geral, Anya indicou que os dados s\u00e3o muito alarmantes. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade mental, cerca de 40% dos ACS est\u00e3o em risco de transtornos mentais comuns, como ansiedade e depress\u00e3o, em todos os munic\u00edpios pesquisados. O uso de medicamentos para controle desses transtornos alcan\u00e7a entre 15% e 20% dos agentes. \u201cA gente notou decr\u00e9scimo de uma s\u00e9rie de atividades que eles faziam na comunidade, por conta desse adoecimento\u201d. Muitos agentes deixaram de exercer algumas a\u00e7\u00f5es devido \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia. Em fun\u00e7\u00e3o da covid-19, diminu\u00edram as visitas domiciliares, as a\u00e7\u00f5es de promo\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade nas resid\u00eancias e, tamb\u00e9m, nas escolas. \u201cTodas essas atividades ca\u00edram nesse per\u00edodo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Fortaleza<\/p>\n\n\n\n<p>Em Fortaleza, onde o levantamento foi iniciado em 2019, para apurar o impacto da viol\u00eancia e, em 2021, da covid-19, os dados revelaram que nas comunidades mais vulner\u00e1veis, ou mais desfavorecidas, a doen\u00e7a afetou de forma mais forte a a\u00e7\u00e3o dos ACS locais, que reduziram nesses locais as atividades, tamb\u00e9m por conta do medo a viol\u00eancia. Na capital cearense, os dados revelam que antes da covid-19, 32% dos ACS apresentavam risco de transtornos mentais comuns. Em 2021, esse percentual pulou para 50%. \u201cA quest\u00e3o da sa\u00fade mental, que \u00e9 um problema para todos, afeta de modo particular os agentes, que est\u00e3o na comunidade e interagem diretamente com o p\u00fablico e com o territ\u00f3rio que, infelizmente, \u00e9 violento\u201d, disse a coordenadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Informou que das 30 cidades mais violentas do mundo, seis s\u00e3o capitais do Nordeste do Brasil. \u201cPor isso, a ideia de trabalhar (no estudo) com dados do Nordeste\u201d. O ranking \u00e9 feito pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ONG) Conselho Cidad\u00e3o para a Seguran\u00e7a P\u00fablica e a Justi\u00e7a Penal, do M\u00e9xico. \u201cA gente sabe que, de fato, isso tem afetado os ACS, as comunidades em geral, os territ\u00f3rios, a vida das pessoas. E para eles (agentes) que est\u00e3o na comunidade no dia a dia, batendo de porta em porta, trabalhando, isso pesa ainda mais na vida deles\u201d, afirmou Anya.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A prefeitura carioca, por meio da Secretaria Municipal de Sa\u00fade do Rio de Janeiro (SMS), destacou o papel dos agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade e do agente de combate \u00e0s endemias (ACE) em benef\u00edcio da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, dentro dos territ\u00f3rios da cidade. Apesar de desempenharem fun\u00e7\u00f5es diferentes, ambos trabalham de forma integrada e lidam diretamente com a comunidade, com o mesmo prop\u00f3sito de entender as necessidades e orientar a popula\u00e7\u00e3o. Atualmente, a SMS conta com 7.692 agentes comunit\u00e1rios e 2.810 agentes de endemias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, o secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade, Daniel Soranz, avaliou que os ACS e os ACE s\u00e3o trabalhadores essenciais para o SUS. \u201cS\u00e3o o principal elo entre as comunidades e as unidades de sa\u00fade. Fazem a imensa maioria de procedimentos de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as\u201d. Soranz lembrou que esses dois agentes foram fundamentais, nos \u00faltimos anos, para aumentar a expectativa de vida da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, 75% de todas as gestantes da cidade do Rio de Janeiro s\u00e3o acompanhadas por um agente comunit\u00e1rio de sa\u00fade. \u201cMais de 80% dos domic\u00edlios da cidade recebem, pelo menos, uma visita de agente de vigil\u00e2ncia em sa\u00fade no Rio. A gente considera essa categoria como uma das mais importantes dos profissionais de sa\u00fade. Eles precisam ser reconhecidos como profissionais de sa\u00fade, porque muitos locais ainda n\u00e3o os consideram assim. \u00c9 uma conquista, \u00e9 justo e eles merecem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel Soranz adiantou que a SMS pretende ampliar a rede de agentes no munic\u00edpio. \u201dA previs\u00e3o, no pr\u00f3ximo ano, \u00e9 que a gente tenha mais 400 agentes de sa\u00fade, entre agentes de endemias e agentes comunit\u00e1rios, atuando no munic\u00edpio do Rio de Janeiro\u201d, revelou o secret\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Agentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devido ao contato di\u00e1rio com as fam\u00edlias, muitos agentes acabam criando v\u00ednculos e rela\u00e7\u00f5es de afeto com as comunidades. \u00c9 o caso da Maria Aparecida Gouveia, que trabalha no Centro Municipal de Sa\u00fade Rocha Maia, em Botafogo, zona sul do Rio. Nas campanhas de vacina\u00e7\u00e3o, por exemplo, a agente se transforma tamb\u00e9m em personagens infantis, para distrair as crian\u00e7as. Para isso, ela faz uso das aulas de teatro e dos trabalhos em festas, que exercia antes de ser uma ACS.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o, para mim, essa integra\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as \u00e9 muito bacana. Elas adoram. Acaba sendo uma atra\u00e7\u00e3o para os adultos tamb\u00e9m. Eu j\u00e1 fui paciente da unidade, ent\u00e3o conhe\u00e7o alguns usu\u00e1rios. Nos territ\u00f3rios em que eu n\u00e3o tinha v\u00ednculo com as pessoas, comecei a criar, faz parte da minha fun\u00e7\u00e3o. Amo trabalhar com essas pessoas. Entendo muito a import\u00e2ncia do meu trabalho e acho que chegar com um sorriso no rosto \u00e9 sempre muito importante\u201d, assegurou a agente.<\/p>\n\n\n\n<p>O agente de endemias Gilberto de Souza atua h\u00e1 12 anos na comunidade Vila Canoas, em S\u00e3o Conrado e trabalha na vigil\u00e2ncia, preven\u00e7\u00e3o e controle de doen\u00e7as como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Ele \u00e9 capaz tamb\u00e9m de perceber quando as quest\u00f5es relacionadas ao meio ambiente podem estar associadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es determinantes e condicionantes da sa\u00fade e da qualidade de vida das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Gilberto de Souza afirmou que o trabalho integrado com a equipe do CMS Vila Canoas, bem como a rela\u00e7\u00e3o com a comunidade, facilita a obten\u00e7\u00e3o de resultados positivos. \u201cAtividades como visitas domiciliares, palestras, caminhadas e panfletagem nas ruas s\u00e3o realizadas de forma planejada com a equipe. Constru\u00ed tamb\u00e9m um bom relacionamento com a associa\u00e7\u00e3o de moradores, o que considero muito importante para ajudar a transmitir informa\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Hoje, me sinto bastante integrado \u00e0 comunidade de Vila Canoas e sou muito realizado no que fa\u00e7o, pois reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia do meu trabalho.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Bruna Maluf, por sua vez, orienta fam\u00edlias no condom\u00ednio onde mora h\u00e1 quatro anos, em Iraj\u00e1, zona norte do Rio, e trabalha na Cl\u00ednica da Fam\u00edlia Pedro Fernandes Filho. Segundo Bruna, o contato pr\u00f3ximo com as fam\u00edlias cria v\u00ednculos com as m\u00e3es e, inclusive, com as crian\u00e7as, o que facilita em per\u00edodos de vacina\u00e7\u00e3o e na cobran\u00e7a da atualiza\u00e7\u00e3o da caderneta. \u201cA gente explica a import\u00e2ncia da vacina para a crian\u00e7a, a necessidade de cumprir o calend\u00e1rio direitinho, conversa com a m\u00e3e e acaba conseguindo convenc\u00ea-la que a crian\u00e7a precisa da vacina corretamente, nas datas que a t\u00e9cnica de enfermagem coloca na caderneta.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Bruna, foi primordial morar no territ\u00f3rio para ter esse contato mais pr\u00f3ximo com os pacientes. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, ela disse que est\u00e1 se formando em t\u00e9cnica de enfermagem e &nbsp;que a experi\u00eancia como ACS ajuda no curso e vice-versa. \u201cAjuda demais o conhecimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sa\u00fade coletiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora da Fiocruz e da Rede de Pesquisa em Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria \u00e0 Sa\u00fade da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco), Ang\u00e9lica Ferreira Fonseca, a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em sa\u00fade constitui a principal frente de expans\u00e3o dos direitos \u00e0 sa\u00fade no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). \u201cSe hoje h\u00e1 uma presen\u00e7a mais marcante nos munic\u00edpios brasileiros, isso, em grande parte, se deve \u00e0 expans\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em sa\u00fade, onde atuam os ACS e os ACE. \u00c9 por meio do trabalho deles que o SUS tem a possibilidade de estar presente no territ\u00f3rio, nas comunidades. \u00c9 o SUS se fazendo presente no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o brasileira, sobretudo no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, onde a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria em sa\u00fade tem a sua atua\u00e7\u00e3o mais marcante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ang\u00e9lica disse que os agentes levam a a\u00e7\u00e3o do SUS \u00e0s fam\u00edlias de uma forma n\u00e3o simplificada, enfrentando desafios de educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade, porque esse \u00e9 o eixo fundamental do trabalho do ACS. \u201cEle concretiza as a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade e permite voc\u00ea ter um olhar mais amplo para o que \u00e9 o cuidado em sa\u00fade. N\u00e3o ficar centrado apenas no aspecto curativo. \u00c9 trazer a dimens\u00e3o social, a vida real das pessoas para o SUS\u201d. Por estar presente no territ\u00f3rio, \u00e9 mais f\u00e1cil ao ACS perceber situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que, \u00e0s vezes, est\u00e3o desapercebidas pela fam\u00edlia. Situa\u00e7\u00f5es de sofrimento ps\u00edquico, de car\u00eancia material podem ser levadas pelo agente para os servi\u00e7os de sa\u00fade e para o SUS. Do mesmo modo, s\u00e3o esses agentes que est\u00e3o em contato com os v\u00e1rios segmentos da popula\u00e7\u00e3o que s\u00e3o priorit\u00e1rios para o SUS, como crian\u00e7as, pessoas idosas e gestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o agente de combate a endemias (ACE), a pesquisadora da Abrasco e da Fiocruz explicou que \u00e9 tamb\u00e9m o trabalhador que est\u00e1 no territ\u00f3rio, fazendo uma ponte fundamental entre as pessoas com o ambiente. \u201cA gente sabe que os problemas de sa\u00fade se constituem em uma rede intrincada de fatores. O fator ambiental \u00e9 fundamental. O mesmo ocorre com os fatores de educa\u00e7\u00e3o e cultural. Esses trabalhadores, por estarem no territ\u00f3rio, t\u00eam a possibilidade de tornar o SUS presente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Varela Net <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo realizado pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz do Cear\u00e1 (Fiocruz Cear\u00e1) aponta o impacto da viol\u00eancia e da covid-19 nos agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade (ACS) do Nordeste brasileiro, abrangendo quatro capitais (Fortaleza, Recife, Jo\u00e3o Pessoa e Teresina) e quatro cidades da regi\u00e3o (Crato, Barbalha, Juazeiro do Norte e Sobral). 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